No Hemisfério Sul, a primavera entra em torno do dia 22 de setembro. É o equinócio de primavera, o momento em que o Sol cruza o Equador celeste e ilumina os dois hemisférios de maneira equivalente. Na linguagem mais simples, o dia e a noite ficam com duração aproximada, marcando um ponto de equilíbrio entre a luz e a escuridão.
A partir desse momento, os dias continuam ficando progressivamente maiores do que as noites no Hemisfério Sul, até a chegada do verão. A Terra começa a expressar sua força de expansão: as plantas brotam, as flores aparecem, os animais respondem às mudanças da luz e a paisagem recupera movimento.
Esse momento é celebrado na Wicca moderna por meio dos Sabbats, as oito passagens sagradas da Roda do Ano. No Hemisfério Sul, o Sabbat correspondente à entrada da primavera é Ostara.
Ostara é a Terra despertando.
Ostara: o primeiro dia da primavera
Ostara representa o primeiro dia da primavera e o despertar da vida depois do período de recolhimento. A natureza começa a sair de dentro da terra, das sementes, das raízes, dos ovos e dos ninhos. Tudo aquilo que estava protegido começa a buscar luz, espaço e movimento.
O equinócio traz a imagem do equilíbrio. A luz e a escuridão possuem duração aproximada, e esse encontro entre os dois extremos cria uma passagem de igualdade e interação. A primavera nasce desse ponto em que as forças se encontram antes de a luz passar a dominar gradualmente a noite.
Por isso, Ostara trabalha com a fertilidade da terra, o nascimento, o renascimento, a clareza e a abertura para um novo ciclo. A vida começa a aparecer na superfície, mas ela já vinha sendo preparada em silêncio.
A energia de Ostara atua quando algo deixa de ser apenas uma possibilidade e começa a ganhar forma. Uma semente se rompe. Um botão se abre. Um animal sai do abrigo. Uma pessoa encontra coragem para iniciar aquilo que vinha sendo preparado por dentro.
Ostara celebra a vida que retorna com força, cor e movimento. A Terra desperta e mostra que o ciclo de recolhimento cumpriu sua função. Agora, a natureza começa a se expressar.
A história da celebração na Wicca
A Wicca é uma religião moderna, ligada ao neopaganismo e à reverência pelos ciclos da natureza. Seus praticantes organizam o ano a partir de oito Sabbats, que acompanham os solstícios, os equinócios e os pontos intermediários entre eles.
Ostara é o Sabbat relacionado ao equinócio de primavera. Seu nome costuma ser associado a Eostre, uma divindade anglo-saxônica mencionada pelo monge Beda em um texto do século VIII. A referência histórica é breve. A celebração moderna de Ostara reúne símbolos e práticas ligados à primavera dentro da construção ritual da Wicca moderna.
O ovo, a lebre, as flores, as sementes, a água, as cores e os alimentos da estação formam uma linguagem de renascimento e fertilidade. A força da celebração está na maneira como esses símbolos ajudam a pessoa a reconhecer o movimento da natureza e a participar conscientemente dele.
Ostara é uma celebração da primavera do Hemisfério Sul nesta época do ano. No Hemisfério Norte, a primavera acontece no equinócio de março. A Roda do Ano acompanha a estação real do lugar onde a pessoa vive.
Os rituais de Ostara
Ostara é um Sabbat de contato com a natureza. Caminhar pelo campo para colher flores, enfeitar a casa com flores, plantar árvores, flores e ervas, preparar um jardim e observar os primeiros sinais da estação são formas de marcar a passagem.
A pessoa pode fazer oferendas à natureza, levar um buquê para uma nascente, agradecer à água e reconhecer a força que sustenta a vida. Quando a oferenda é feita em um ambiente natural, ela precisa respeitar o lugar e usar materiais que não causem dano ao ambiente.
Colorir ovos é um dos rituais mais conhecidos de Ostara. O ovo representa a vida protegida que começa a se formar e, depois, rompe a casca. A pintura acrescenta cor, alegria e participação humana ao símbolo do renascimento.
A correspondência com os ovos coloridos da Páscoa aparece porque as duas imagens estão ligadas ao imaginário da primavera do Hemisfério Norte. Aqui no Hemisfério Sul, celebramos essa passagem em setembro, quando a estação correspondente chega ao nosso território.
As comidas de Ostara acompanham a abundância e a simplicidade da estação. Podem estar presentes ovos, cremes, leite, pães, saladas, bolo de mel, vinho, ponche, leite e iogurte. São alimentos que evocam nutrição, fertilidade, doçura, crescimento e a presença da terra no corpo.
O ritual de Ostara pode ser simples. Uma caminhada, um vaso de flores, uma árvore plantada, ovos coloridos, um alimento preparado em casa ou um gesto de cuidado com a água já estabelecem uma relação com o Sabbat.
O importante é reconhecer a passagem e participar dela com presença.
A energia de Ostara na Roda do Ano Xamânica
Na correspondência da Roda do Ano Xamânica utilizada nesta leitura, a primavera está ligada à cor amarela, ao Leste, ao fogo, à clareza, à sabedoria, à iluminação e ao renascimento.
O amarelo é a cor da luz que começa a ocupar espaço. É o brilho do Sol, a percepção que se abre e a inteligência que encontra direção. A primavera ilumina aquilo que estava escondido e oferece condições para que a pessoa enxergue com mais clareza o que deseja fazer nascer.
O Leste é a direção do nascimento do Sol. Por isso, representa o começo, a visão, o despertar e o primeiro movimento. É o caminho do visionário: a capacidade de olhar adiante, perceber possibilidades e enxergar uma forma antes que ela esteja totalmente pronta.
O fogo aparece como força de iluminação e impulso. Ele aquece, transforma e dá energia para atravessar a inércia. Na primavera, o fogo se manifesta como vontade de viver, de criar, de sair do lugar e de colocar a vida em movimento.
O corpo relacionado a essa passagem é o corpo espiritual. É a dimensão que percebe os sinais, recebe a inspiração e reconhece que existe uma direção possível antes de qualquer resultado concreto.
O bálsamo da cura, nessa estação, é fertilizar a água. A água recebe movimento, nutrição e vida. Fertilizar a água significa devolver capacidade de gerar, alimentar e sustentar. A pessoa começa a cuidar das fontes que nutrem sua própria vida: a sensibilidade, a intuição, a imaginação, o corpo e a relação com a natureza.
A dança do cachimbo aparece como um gesto de conexão, oração e circulação da energia. O perfume masculino traz a presença solar, afirmativa e fecundante do princípio que penetra a terra e desperta aquilo que estava adormecido.
O animal de poder associado à primavera, dentro dessa correspondência da Roda do Ano Xamânica, é a águia.
A águia pertence ao Leste e ao caminho do visionário. Ela voa alto, observa de longe e enxerga o território por uma perspectiva ampla. Seu ensinamento está na capacidade de sair da confusão, elevar o olhar e reconhecer o movimento completo antes de agir.
A águia mostra que a primavera exige visão. A vida começa a crescer, mas precisa de direção. A força que desperta precisa saber onde pousar.
O que acontece no Hemisfério Norte
Na mesma data em que o Hemisfério Sul entra na primavera, o Hemisfério Norte entra no outono. Para quem vive lá, a paisagem começa a se encaminhar para o recolhimento, a colheita e a redução gradual da luz.
Na Roda do Ano, essa passagem é celebrada por muitos praticantes através de Mabon. Mabon é o segundo dos três Sabbats da colheita. O primeiro está relacionado ao início da colheita, Mabon representa a colheita principal e o terceiro conduz ao encerramento do ciclo, à passagem e à preparação para o inverno.
Mabon trabalha com o que amadureceu. A árvore oferece seus frutos, a terra mostra o resultado do que foi plantado e a pessoa precisa reconhecer o que recebeu antes de entrar em um período de redução e recolhimento.
Mabon traz agradecimento, partilha, balanço e consciência das consequências. Cada colheita revela o que foi cuidado, o que foi abandonado e o que chegou ao ponto de maturidade.
Enquanto Ostara pergunta o que está começando a nascer, Mabon pergunta o que chegou ao seu ponto de conclusão.
Ostara olha para a semente. Mabon olha para o fruto.
Ostara abre. Mabon recolhe.
Ostara desperta a Terra. Mabon ensina a receber o que a Terra entregou.
A energia de Mabon na Roda do Ano Xamânica
Na correspondência da Roda do Ano Xamânica, o outono está relacionado à morte simbólica, à direção Oeste, à introspecção, ao desapego e à retirada de tudo aquilo que perdeu verdade e força.
A morte, aqui, representa o encerramento de uma forma. Folhas caem, frutos são colhidos, a luz se reduz e a natureza começa a preservar energia. Algo precisa terminar para que a vida atravesse o próximo período.
O Oeste é a direção do pôr do Sol. É onde a luz desaparece no horizonte e o dia entra em sua fase de encerramento. Por isso, essa direção está ligada à introspecção, à experiência, à memória e ao contato com a sombra.
Mabon conduz ao desapego. É o momento de retirar da vida aquilo que deixou de ser verdadeiro, aquilo que perdeu força e aquilo que ocupa espaço sem produzir vida. A colheita também envolve separar o que alimenta do que precisa ser devolvido à terra.
A força do outono é a força da experiência. Ela nasce daquilo que foi vivido, testado e amadurecido. O outono possui profundidade porque já atravessou o crescimento e agora conhece as consequências do que foi plantado.
O reino relacionado a Mabon é o reino mineral. A pedra guarda memória, resistência e permanência. Ela representa aquilo que permanece depois que as formas passageiras desaparecem.
O corpo associado a essa passagem é o corpo físico. O outono traz a pessoa de volta ao corpo, aos limites, ao cansaço, à necessidade de descanso e à realidade concreta da existência.
O bálsamo da cura é o silêncio. O silêncio permite escutar o que ficou encoberto pelo excesso de movimento. Ele oferece espaço para a assimilação da experiência e para a compreensão do que precisa terminar.
O tambor marca o ritmo profundo da terra. Ele lembra o pulso, o corpo, o sangue e a repetição dos ciclos. O elemento é a Terra, com sua força de sustentação, maturidade e recolhimento.
O princípio relacionado a Mabon é o profundo feminino, ligado à gestação interna, à capacidade de guardar, digerir, transformar e devolver à terra aquilo que já cumpriu sua função.
A cor é o preto, a cor da sombra, do silêncio e do espaço onde a forma desaparece antes de se transformar. O preto contém a experiência que ainda está sendo assimilada.
O animal de poder associado ao outono é o urso.
O urso conhece o recolhimento. Ele entra em sua caverna, preserva força e atravessa o período de menor movimento. Seu ensinamento é o caminho do guerreiro: a coragem de olhar para a própria sombra, sustentar a experiência e retirar da vida aquilo que perdeu verdade.
O guerreiro de Mabon não luta contra o ciclo. Ele reconhece o momento de parar, guardar força e encerrar o que precisa ser encerrado.
Duas estações, duas tarefas
No mesmo equinócio, os dois hemisférios recebem movimentos opostos.
No Sul, Ostara abre a primavera. A Terra desperta, a luz ocupa cada vez mais espaço, a vida rompe a proteção e começa a crescer. O Leste chama para o nascimento, o fogo ilumina, o amarelo traz clareza e a águia ensina a visão.
No Norte, Mabon abre o outono. A Terra recolhe, os frutos amadurecem, a luz começa a diminuir e a vida se prepara para um período de interiorização. O Oeste conduz ao silêncio, a sombra revela o que precisa terminar e o urso ensina o recolhimento do guerreiro.
A primavera pergunta: o que está pronto para nascer?
O outono pergunta: o que chegou ao fim e precisa ser devolvido à terra?
A Roda do Ano mostra que não existe um único movimento acontecendo ao mesmo tempo em todos os lugares. A Terra é uma só, mas cada hemisfério atravessa uma etapa diferente do ciclo.
Aqui no Sul, a primavera pede abertura, clareza, plantio, movimento e visão. No Norte, o outono pede colheita, experiência, desapego, silêncio e força.
Ostara e Mabon se encontram no equilíbrio do equinócio. Um olha para o que começa. O outro olha para o que amadureceu. Um desperta a vida. O outro recolhe o que a vida produziu.
Essa é a sabedoria da Roda do Ano: cada estação possui sua própria energia, seu próprio corpo, seu próprio animal e sua própria tarefa espiritual.